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Daniele de Mello — Um corpo relaxado tem gozo porque sabe gozar a vida: conserva a umidade do encontro, respira sem couraça e deixa o mundo atravessá-lo sem precisar possuí-lo.

21 Maio 2026 · 4 min de leitura

Tantra

Um corpo relaxado tem gozo porque sabe gozar a vida: conserva a umidade do encontro, respira sem couraça e deixa o mundo atravessá-lo sem precisar possuí-lo.

O corpo que sabe beber o mundo

Há uma alegria que nasce quando o corpo cessa de se organizar em defesa. Ela aparece quando a pele começa a confiar naquilo que toca, quando a respiração encontra espaço no ventre, quando o olhar repousa sobre as coisas sem a pressa de capturá-las. Nessa disponibilidade, o prazer ganha outra espessura: torna-se modo de conhecer.

Na via Kaula, o corpo é templo, passagem, campo de reconhecimento. A consciência atravessa os sentidos, e os sentidos, quando acordados, devolvem o mundo ao coração. Daniel Odier resume o pensamento caxemiriano em três afirmações simples: “Tu és Shiva/Shakti”, “Shiva/Shakti é o Ser”, “o universo é o jogo da tua consciência”. Dessa visão nasce uma consequência muito concreta para a vida: a unidade buscada já se encontra presente, e seu reconhecimento produz relaxamento do corpo e do espírito, harmonia, alegria profunda e “um gozo do mundo” contínuo.

Um corpo relaxado goza a vida. Gozo, aqui, diz respeito à fruição, à faculdade de beber a experiência sem reduzi-la à posse, à descarga ou ao consumo. O corpo que goza a vida sente o ar no nariz, a água na língua, a temperatura de outro corpo ao lado, a textura da manhã, a reverberação de uma palavra. Ele recebe. E, ao receber, participa. Na linguagem da prática, a presença abre poros onde antes havia vigilância; a energia circula onde o medo havia fabricado couraça.

Odier observa que, para os tântricos caxemirianos, a energia se perde na tensão. Um corpo aberto recebe energia permanentemente, como lugar de passagem. Essa imagem muda o modo de compreender o prazer: ele passa a ser circulação, entra, atravessa, transforma, retorna. A couraça tenta guardar vida como quem fecha um cofre; o corpo desperto aprende outra economia, mais próxima da respiração, da onda, da saliva, da seiva.

Chamar esse corpo de úmido é nomear sua capacidade de permanecer irrigado. Há corpos secos mesmo em meio ao estímulo: corpos que tocam sem sentir, comem sem saborear, fazem amor obedecendo a uma ideia de desempenho, conversam enquanto se protegem de qualquer encontro. A umidade de que falo pertence ao organismo inteiro, às lágrimas que voltam a ter lugar, à boca que recupera gosto, à pele capaz de acolher aproximações, à coluna que abandona a tarefa antiga de sustentar uma identidade rígida.

No “sabor do mundo”, Odier propõe uma mudança delicada: ao beber um copo d’água, considerar que a água também nos deseja. A experiência simples de beber se amplia, o mundo aparece como participante, atravessando o corpo com sua presença. O gosto ganha uma inteligência própria: a água toca a língua, passa pela garganta, refresca o peito, acorda a memória dos elementos. A prática se faz em plena vida, no alimento, no cheiro, no atrito, na partilha de uma refeição, na atenção que torna a sensação mais vasta.

Essa é uma chave para falar de prazer sem empobrecê-lo. Prazer, na via Kaula, pede consciência, coração, presença. Quando o prazer é capturado pelo ego, ele esvazia; quando é devolvido ao coração, ele nutre. A Prática do Coração das Yoginis descreve esse movimento como um vórtice contínuo: as formas sensoriais, emocionais e mentais são colhidas e reconduzidas ao coração, onde os nós do ego se dissolvem em vibração, spanda. A imagem da colmeia é precisa: algo em nós recolhe o pólen da realidade e o converte em alimento íntimo.

Abhinavagupta ajuda a ampliar essa compreensão pelo rasa, o sabor estético. No estudo do prazer estético, a alegria mística e o prazer da arte aparecem como experiências de mesma natureza; a seiva da obra, seu rasa, circula entre criador, intérprete e espectador. Um corpo sensível sabe disso antes de qualquer teoria: há músicas que molham por dentro, poemas que abrem espaço na garganta, uma beleza repentina que desarma a rigidez do rosto. O prazer, nesses instantes, tem a força de uma lembrança: somos menos separados do que imaginávamos.

A espiritualidade que amadurece no corpo aprende a confiar no sensível. O toque, o cheiro, o som, o gosto e a forma ensinam quando encontram atenção suficiente para revelar sua largura. O corpo relaxado, úmido, sem couraça, goza porque sua atenção se dedica a sentir, sem a tarefa antiga de provar pureza, força ou superioridade. Ele se deixa educar pela vida que o atravessa. Há uma dignidade nessa entrega: cada sensação pode reacender o reconhecimento de que a consciência dança em tudo, inclusive na matéria mais simples.

Talvez por isso o prazer assuste tanto as estruturas que preferem corpos obedientes. Um corpo encouraçado é previsível, administra o desejo como ameaça, confunde controle com virtude e chama de maturidade aquilo que muitas vezes é anestesia. Um corpo que recupera o prazer entra em relação com o mundo de maneira menos domesticável, pois volta a escutar seus ritmos, seus apetites, seus limites, sua alegria. Ele deixa de pedir permissão para existir como corpo.

A via Kaula oferece uma ética do contato: permanecer consciente no instante, honrar os sentidos, reconhecer o coração como centro vivo da experiência. Daí nasce uma frase possível para sustentar este artigo: um corpo relaxado tem gozo porque sabe gozar a vida; ele permanece úmido, poroso, sem couraça, aberto ao tremor pelo qual o mundo entra e se reconhece nele. Esse gozo pode ser discreto. Pode estar no copo d’água, no banho demorado, no cheiro da comida, na pele que amolece depois de anos, na respiração que desce, na alegria silenciosa de sentir que a vida ainda passa por dentro.


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